TURBULÊNCIA POLÍTICA AMEAÇA PROCESSO DE RETOMADA INDUSTRIAL

A retomada da atividade industrial depende do desfecho da crise política que assola o País. Questões complexas da agenda política nacional, como a realização das reformas tributária e da Previdência e os desdobramentos da Operação Lava Jato, serão determinantes para a recuperação da economia, em especial da indústria.

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), mostrando “otimismo conservador”, já divulgou que projeta um crescimento de 0,96% na receita do parque estadual neste ano em relação a 2016. Porém, a gerente de economia da entidade, Daniela Britto, alertou que a recuperação do setor dependerá do quadro político brasileiro.

“Há riscos para esse cenário (de recuperação) se concretizar e eles estão relacionados ao fato de existir uma agenda política complexa, com a renegociação das dívidas dos estados, a reforma da Previdência e a tributária, que enfrentaram fortes interesses corporativos, e um Congresso fragmentado. Além disso, os desdobramentos da Lava Jato podem paralisar tudo que está sendo feito no âmbito econômico”, analisou a especialista da Fiemg.

Daniela Britto explicou que, mesmo com alguns sinais positivos no viés econômico, a política, de fato, pode inverter o quadro projetado de leve recuperação para um cenário ainda pior do que o visto em 2016. “Há uma tendência clara de queda da inflação, o que por sua vez possibilita a redução dos juros, da taxa Selic. Do ponto de vista dos preços, isso é favorável ao processo de retomada da demanda, olhando sob o prisma do consumo das famílias”, observou.
Nesse sentido, de acordo com a economista da Fiemg, “a entidade visualiza um processo de retomada de alguns investimentos, ainda que de forma tímida e mais para o fim deste ano, e retorno da confiança, na medida em que os planos de investimentos em infraestrutura, destravamento dos processos de concessões e formação de parcerias público-privadas (PPPs) do governo Temer forem sendo executados”.

Ajustes pesados – “A indústria conviveu com uma combinação de fatores, como a queda da demanda e níveis elevados de estoques, e vem fazendo ajustes pesados desde 2014. Vimos isso refletido na produção industrial do País, que caiu 1,5% em 2014, teve redução de 6,3% em 2015, queda de 3,7% em 2016, e, para 2017, projetamos um crescimento de 1%. É uma base depreciada de comparação, portanto uma recuperação tímida”, ponderou a economista.

Em Minas, após encerrar 2015 com queda de 15,93% na receita na comparação com 2014, a indústria do Estado prevê fechar 2016 com retração de 12,97% no faturamento. Trata-se da terceira queda consecutiva do parque industrial mineiro, uma vez que em 2014 também foi registrado recuo, neste caso, de 6,27% sobre o exercício anterior. Com o resultado, a indústria mineira acumula baixa de 35,17% nos últimos três exercícios.

“Nesse sentido, quando estimamos alguma recuperação pelo lado da demanda, com expectativa de crescimento do consumo das famílias de 0,8% para 2017 e de 0,2% para o consumo do governo, combinado com o elevado nível de ociosidade da indústria, isso pode promover um processo de retomada”, pontuou.

Por outro lado, caso a questão política tenha consequências graves, interfira ou adie as medidas que já estão sendo tomadas no âmbito econômico, a indústria será um dos setores que mais deverá sofrer. “Esse é o risco, principalmente de setores que contam com uma configuração conjuntural desfavorável também. São setores dependentes da renda, como a indústria automotiva e a construção civil, que tendem a ser muito afetados em primeira linha, porque também têm uma cadeia produtiva extensa e isso levaria para baixo a produção industrial”, justificou.

Desemprego – Além disso, o rompimento do ritmo de retomada econômica, com inflação e juros em queda em função de qualquer entrave político, impactaria, conforme Daniela Britto, a demanda, que ainda é frágil. “O nível de desemprego ainda é muito elevado para 2017 porque ainda tem setores se ajustando, como o de serviços”, acrescentou.

A economista da Fiemg também citou os setores de bens de consumo duráveis, como os fabricantes de eletrodomésticos da linha branca, a própria indústria automotiva e também o segmento de bens de capital, que já sofre há alguns anos com a carência de investimentos no País. Fonte: Diário do Comércio